Desafios na Pandemia

Esses foram os principais desafios enfrentados por estudantes refugiados no Brasil durante a pandemia – e algumas das soluções encontradas.


“A UNESCO estima que mais de 1,5 bilhão de alunos foram afetados pelo fechamento de escolas ou universidades desde o início da pandemia. Certamente, essa interrupção sem precedentes na educação afeta todas as crianças. Mas, para jovens refugiados que já enfrentam obstáculos significativos para conseguir um lugar dentro da sala de aula, o contexto pandêmico pode minar todas as esperanças de alcançar a educação que precisam.” – Filippo Grandi, Alto Comissário do ACNUR, no Relatório de Educação do ACNUR 2021


De muitas maneiras, os desafios enfrentados por pessoas refugiadas no acesso à educação durante a pandemia têm sido bastante similares aos de outros jovens e crianças não-refugiadas: adaptação às aulas online, conciliação da nova rotina de estudos com o trabalho dos pais ou responsáveis, aumento exponencial do tempo de tela das crianças e lacunas de socialização são apenas alguns deles.


Também há outros cenários ainda mais preocupantes, como o de famílias que forma assoladas pela crise econômica e passaram a ter necessidades básicas em evidência. Como resultado, muitas não tiveram outra opção a não ser colocar os estudos dos filhos em segundo plano. Nesses casos, questões como insegurança alimentar, violência doméstica, barreiras de conectividade tornaram ainda mais difícil – praticamente impossível – com que muitos jovens e crianças pudessem dar continuidade aos seus estudos.


Mas, de formas distintas, crianças e jovens refugiados enfrentaram ainda outras barreiras inerentes à situação em que se encontram. A primeira, sem dúvida, é a de acesso. De acordo com dados globais do ACNUR, apenas 68% das crianças refugiadas estavam matriculadas no ensino primário em 2020. O número cai para 34% no ensino secundário – e apenas 5% no ensino superior.


Para a diminuta parcela de refugiados que conseguem chegar até a sala de aula, os desafios se prolongam: a barreira do idioma, diferenças culturais, adaptação ao novo país e as dores de terem sido forçados a deixar tudo para trás.



A escola é um espaço que oferece proteção


Em situações extraordinárias, muitos educadores foram além para garantir que refugiados encontrassem a rede de proteção que necessitavam. Com as restrições de circulação impostas pelo lockdown, professores se tornaram pontes entre muitas famílias refugiadas e o acesso a serviços básicos.


Segundo a professora Cristiane Maria Coutinho Filho, de uma escola pública da cidade de São Paulo, a escola entendeu que a situação imposta pela pandemia da COVID-19 exigiu uma nova postura e uma adaptação às novas prioridades e necessidades que surgiram em um contexto emergencial. Neste caso, a preservação da vida deveria vir antes da preocupação com a aprendizagem formal.


“... a gente trabalhou como assistente social, mediadora de advogado, mediadora do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e do CRAI (Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante e Refugiado)... A gente preencheu cartão merenda, formulários - porque esses formulários online não são pensados para os refugiados, não são pensando nem para os alunos que não são alfabetizados… - então a gente trabalhou fazendo esse trabalho humanitário, de sobrevivência, que passou pela cesta básica, pelo vale alimentação, pelo contato com advogados trabalhistas... lidamos com violência doméstica, com a morte de alguns alunos que perderam os filhos.... a gente sabia que estava no limite, todos nós estávamos no limite do sofrimento, mas essas pessoas mais ainda...” (Cristiane Maria Coutinho Fialho, 51 anos)



Exclusão digital


Para muitas pessoas refugiadas, o telefone celular era uma ferramenta de trabalho. Durante a pandemia, o aparelho ganhou uma funcionalidade adicional: sala de aula.


O compartilhamento de aparelhos eletrônicos dentro de casa e o acesso restrito à internet foi um dos enormes desafios enfrentados pelas famílias refugiadas. Mais uma vez, a educação dos filhos se viu forçada a esperar frente à necessidade dos pais de priorizarem o uso dos aparelhos eletrônicos para o trabalho.


Karen Thomaz, coordenadora pedagógica em São Paulo, identificou as famílias que não tiveram condições de ampliar o número de aparelhos eletrônicos em casa. Tendo disponibilidade de recursos na escola, não pensou duas vezes em doar computadores para as crianças.


“... para algumas famílias foi muito difícil, porque eles não tinham computadores, nem para os menores, nem para os maiores. O que aconteceu é que nós emprestamos, nós tínhamos computadores adicionais, nós temos um aplicativo educacional, nós acabamos emprestando… para que eles pudessem levar para casa, então a maioria conseguiu.” (Karen Thomaz, 49 anos)



Apoio dentro de casa


Os desafios não foram só para as crianças – pais também tiveram que se desdobrar para buscar soluções de aprendizagem, e muitas vezes se viram em situações em que não sabiam como lidar. Muitas pessoas relataram dificuldades em acompanhar o processo de ensino e aprendizagem de seus filhos e filhas. Para Prudence, da República Democrática do Congo, ter que assumir a responsabilidade de apoiar os filhos nos estudos on-line não foi possível por causa do idioma.


“... pior ainda nesse período da pandemia. Tá sendo difícil. Eu falo português, mas não sou esperta com a língua como todo brasileiro. Tem que dar aula para as crianças e não consigo… Eu tenho que estar na mesa para estudar e ensinar, papel de educador… essa coisa de YouTube, depois ensinar criança no caderno, pra mim é complicado…” (Prudence Kalamby, 40 anos)


No Brasil e o no mundo, a pandemia da COVID-19 pressionou os estudantes refugiados a se afastarem da escola, impactando negativamente essas crianças e jovens que já enfrentavam diversas dificuldades no âmbito da inserção, inclusão e compreensão dos conteúdos escolares. A presença da escola – mesmo que virtualmente – deu conta de necessidades que talvez não teriam sido atendidas de outra forma.


Com a retomada da aulas presenciais, a escola volta a se materializar não só como um espaço aprendizagem e socialização, mas também como um núcleo de acolhida que viabiliza o acesso à informação e direitos.